A Bíblia, em muitas ocasiões, não nos diz o que fazer, mas como fazer. Em muitas ocasiões nada é o que se deve fazer! E, para o cristão, há uma maneira certa de não fazer nada. Aliás, o fazer nada cristão é extremamente produtivo e recomendado em inúmeras situações! O fazer nada cristão envolve sofrimento, passivo, claro! Os filhos de Deus devem sofrer, mas não fazer sofrer. Alguém feriu tua honra? Deixa ferir! Aliás, que honra? Que honra tem um cristão para que possa ser ferida? Por acaso não morreu ela na cruz com nosso ego? Como poderíamos nos ofender e revidar quando nos acusam de mentirosos? Acaso não somos? Por que nos ofendemos e tentamos nos justificar quando acusados de hipócritas? Não somos também? Por que nos julgamos melhores que nossos acusadores a ponto de defender nossa honra com unhas e dentes? Quando fores injuriado, sofra, é isso que o N.T. ensina. Mas não só sofra, mas tenha misericórdia, e para essas duas andarem juntas é preciso que se entenda que, primeiro, você não tem honra…e segundo, és tão miserável e cabeça dura quanto o que te acusa, logo, engula o desaforo e lembre que você é como o seu acusador, a diferença entre ele e você é que você já entendeu onde está e quem é, enquanto ele ainda não conheceu a cruz do Senhor, ou se conheceu então ainda não entendeu.

A nossa baixeza é a nossa grandeza, e isso não é motivo de glória e sim de vergonha. Que bom que me envergonho, pois, tendo esperança no Senhor, sei que essa vergonha, que é a consciência do pecado que habita em mim, é o fruto de uma conversão, que é obra do Senhor.

Não se envergonhar é tão problemático quanto não chorar nem sofrer pela desgraça alheia, como escrevi anteriormente. Creio, assim como o rabino ortodoxo Manis Friedman, que a vergonha é a sugestão de que algum limite foi ultrapassado. Você sentia vergonha quando sua mãe o flagrava cantando de frente ao espelho, não? Eu sim. E por quê? Porque aquela ocasião era minha e de mais ninguém; era parte da minha intimidade; era algo que cria que ninguém mais entenderia ou apreciaria, e, mesmo se apreciasse, não importava, eram coisas bobas com as quais me divertia…era meu espaço; eram momentos em que estava vulnerável. Toda intimidade é delicada demais para ser exposta: simplesmente as pessoas não saberiam o que fazer com ela e, por isso, teriam pavor, achariam graça ou até talvez sentiriam misericórdia. Nela guardamos discursos indizíveis e pensamentos constrangedores. É lá que também guardamos nossa real carteira de identidade; é na intimidade que está nossa real foto 3×4, nome completo, filiação e endereço.

Minha intimidade é um lugar pequeno demais para mais de uma ou duas pessoas visitar. Aliás, na minha intimidade só cabe uma pessoa além de mim. Há certas coisas que só Deus e eu sabemos sobre mim, outras que apenas alguns sabem, e outras que nem eu sei, apenas Deus sabe.

Até hoje, como cristão, passei por duas grandes crises. Uma foi na minha conversão, pois foi quando Deus acendeu a luz daquele quartinho secreto, que aqui chamo de intimidade, e me mostrou o que realmente havia lá. A segunda foi quando me cansei de morar na minha intimidade sozinho.

Ter minha vida íntima exposta seria o equivalente a assistir a um leilão de minhas roupas sujas. O que é a vergonha então? É esse sentimento de que algum limite foi ultrapassado, algo que não era para ser visto foi visto por quem não deveria tê-lo visto! A vergonha é para a moralidade o que o termômetro é para o calor, disse Ravi Zacharias.

Estamos observando, e até fazemos parte de, a geração que está aprendendo a não ter vergonha. Não no sentido geral, pois todas as gerações tiveram seus sem-vergonhas, mas em um sentido único devido à internet. Em sites de relacionamentos postamos fotos de nossas vergonhas e as louvamos (“eu bêbada na festa tal…”, “eu fora em lugar tal…”, “eu curtindo todas em tal e tal…”). No Youtube postamos vídeos falando de nossa intimidade, de maneira que fazemos público aquilo que deveria ser privado, assim destruindo a essência daquilo que dá à lembrança o sentimento de nostalgia: a exclusividade do momento e a surpresa do relembrá-lo. Com o Twitter, nem sequer pensamentos mais são íntimos. Em perfis de internet nós não nos descrevemos, mas nos reescrevemos. Lá…quer dizer, aqui, criamos um mundo onde a vergonha do mundo real é a glória do mundo virtual.

O que acontece então? Não temos mais vergonha de sermos vergonhosos. Não reconhecemos mais a baixeza como algo baixo (até os cristãos!).

Aviso às adolescentes cristãs, e não me venham com “Moralista! Fariseu!”

…se vocês não se envergonham de postar fotos em que estejam seminuas, quer dizer, semivestidas, desculpe-me, mas há algo de muito errado com vocês. Lembrem disto também: o que é de todo mundo não é de ninguém! Não esperem ser tratadas com exclusividade se vocês não se fazem exclusivas! Lembre que em terreno público, por mais que se ponham placas dizendo “não jogue lixo”, joga-se muito lixo, já em terrenos privados lixo não chega nem perto. Se você se expõe ao mundo como um punhado de carne moída, não espere ser considerada um filé. Ao conversar com uma amiga da faculdade que estava um pouco triste, se me lembro bem por algum relacionamento que não havia dado certo, pensei em num bom exemplo que quero compartilhar. Lembro-me de que minha colega disse “ele me trocou por isso!?”, no que respondi“fulana de tal…responda-me, ‘por que as pessoas preferem fast-food do que ir a um restaurante caro?’”, ela disse “não sei Gui, por quê?”, disse“ora, porque fast-food é comida rápida! Pediu, chegou! Também é mais barato e sempre vem com um brinde! Já para ir num restaurante caro você precisa trabalhar, guardar dinheiro, vestir-se bem, e além do mais, para apreciar a comida de lá é preciso um mínimo de cultura gastronômica, enquanto fast-food é vapt-vupt e tem tudo o mesmo gosto! Não se sinta rejeitada, pois talvez ele tenha te trocado por não aguentar mais esperar a comida do restaurante caro e ter ido encher a pança no McDonald’s.” Por mais que tenha sido bem humorado meu comentário, creio que foi pertinente. Então, meninas, se vocês querem ser vistas como exóticas, não se exponham como fast-food: barata, vulgar e que se consegue em qualquer esquina. Sério, pensem nisso…modéstia não é moralismo. Não precisa ser puritana, mas não vai ser vadia, seja modesta! Sério, não force os homens a olhar para seus seios antes que possam enxergar a cor de seus olhos, pois se assim fizerem, creiam-me, não será em vocês que eles estarão pensando!

A alegria que sinto quando me envergonho é por ainda ser capaz de me envergonhar, ou seja, ainda consigo definir limites e distinguir entre privado e publico. Assim sabendo, quando alguém te envergonhar ou humilhar, não revide, mas aprenda a ter pena de seu acusador e ame-o, pois ele é tão miserável quanto você, apenas ainda não quis dar uma olhada no que há em sua intimidade e descobrir, como você já descobriu, que é tão vergonhoso como ele diz que os outros são.

 

Guilherme Adriano

 

Categorias: Reflexões

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