Uma tarde dessas eu estava tomando um café e pensando, como de costume, no sentido da vida de acordo com Jesus. Sentei-me, pedi o café e comecei a pensar de que versículo ou pensador começaria a desdobrar conclusões. Enquanto pensava, vi à minha frente uma mulher sentada à mesa com sua mãe, creio, e seu filho, que dormia, em um carrinho de bebê. O menino estava dormindo, até que, por causa do barulho do lugar, acorda assustado, ergue-se do carrinho, esfrega o olho e, com uma baita cara de desespero e sonolência, procura encontrar-se – sendo que ele tinha acabado de acordar, entendo seu desespero! A primeira coisa que fez ao acordar assustado foi franzir a testa e ensaiar uma boca de choro, a segunda foi abrir o sorriso mais lindo do mundo ao ver sua mãe e, muito rapidamente, agarrar-se ao seu pescoço num abraço que parecia dizer “Mãe, você!!!”.

Para que continuar pensando em versos e pensadores? Apenas pensei no que vi. Chesterton, se não me engano, disse que aprendera mais a respeito da vida com um abraço de sua filha do que com todos os livros de filosofia que havia lido.

O menininho que vi acordar, ao tomar consciência de que estava em lugar estranho, buscou o sentido de sua vida: sua mãe. Para ele o sentido da vida está no relacionamento que tem com seus pais. Não havia vida sem a mãe, apenas choro e pavor. Em meio ao caos que o rodeava – pois para um menino de 3-4 anos uma padaria lotada é o caos – a única coisa que o devolveu a alegria foi a visão da mãe. Fico tentando imaginar o que aquela mãe sentiu ao ver seu filho rejubilar-se à sua visão. Não consigo. Todos os sentimentos mais bonitos que já senti não devem chegar perto do que aquela mulher sentiu naquela hora.

Lembro-me de que Jesus disse que os maiores mandamentos eram amar a Deus sobre todas as coisas e o outro como a si mesmo, e nisso entendo que Jesus definiu o sentido da vida em dois relacionamentos: o com o Pai e o com os homens. O sentido da vida, assim, é relacionar-se com Deus e com os homens. Não com Deus primeiro e depois com os homens, mas com Deus enquanto que com os homens. Jesus relacionava-se com o Pai enquanto que com os homens. O objetivo dessa vida, para o cristão, é ser como Cristo, e Cristo não ensinou senão o ágape e a santidade como regras de vida.

Como cristão digo que o sentido da vida não é entendê-la corretamente, mas sim vivê-la corretamente. Está escrito que “a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” Viver é isso: conhecer a Deus e a Seu Filho. Se há um homem em que a vida, com todas suas alegrias e tristezas mais intensas, mais se evidencia, esse homem foi Jesus de Nazaré. Nele vemos como Deus é e como o homem deve ser, diz Ariovaldo Ramos.

Parafraseando Provérbios 10:19, “em meio a muitos palavras achasse muito engano”, nisso, minha opinião de professor é esta: sabedoria que não possa ser explicada e compreendida por um homem simples não vale a pena ser propagada. Portanto, real sabedoria é aquela que é entendida por meninos como aquele que acordou assustado e se atirou à mãe, aliás, sobre o qual Jesus disse “é desses o reino dos céus”.

Sabedoria verdadeira é aquela que instiga o homem a viver a vida como a vida deve ser vivida. A sabedoria de Cristo é simples, mas profunda. Simples para que uma criança entenda e profunda para ocupar a mente e o coração dos homens há mais de dois mil anos. Crianças e filósofos se ocupam de Suas palavras. Os mais profundos insights a respeito da vida, morte e homem foram feitos baseados em simples frases de Jesus. A mensagem d’Ele é como um rio cristalino, transparente, profundo e cheio de vida. Sei que só quem já entrou num rio assim pode imaginar a sensação, da mesma maneira, só quem já provou as palavras d’Ele é capaz de compreender a comparação.

Não há um caminho pelo qual se chega à verdade ou método pelo qual se descobre a vida. Não para Jesus! Ele foi bem diferente nesse aspecto! Aos filósofos diz, “eu sou a verdade!”,aos religiosos diz “eu sou o caminho!”, e aos pobres diz “eu sou a vida!”.

Para Jesus, viver é gozar e sofrer a vida como um filho de Deus que imita o Filho de Deus. Para Ele, estar no caminho certo é estar n’Ele.

Aprendi com o Senhor que apenas gente como aquele menininho que vi acordar entraria no reino. Esse menininho me ensinou uma lição. Quem ama o Pai entendeu que o viver precede o entender. Primeiro vivo a vida que recebi de Cristo, e ao vivê-la, busco entendê-la. O menininho que acordou assustado não buscou primeiro entender o que acontecia ao seu redor para depois buscar sua mãe, antes, primeiro buscou sua mãe, pois confiava nela, e depois, com ela, buscou entender aquele mundo estranho ao seu redor. Primeiro buscamos o Pai, através de Jesus, pois assim Ele nos ensinou, e a partir d’Ele entendemos a vida.

Acho válido o argumento que Platão menciona em Mênon, que não poderia encontrar o que não conheço, pois se não conheço, como reconheceria quando encontrasse? Desse argumento entendo que o homem está fadado ao fracasso quando sai em busca da verdade quando não sabe o que é a verdade, pois como reconheceria algo que não conhece? Seria como se eu hoje saísse à procura de enhãnhas adultas – se eu não sei o que é uma enhãnha, nunca vou saber onde procurá-la ou reconhecer uma ao encontrá-la!

Ironicamente, ou talvez não, no português, o verbo “reconhecer” contém o verbo “conhecer”, sugerindo assim que quem reconhece é porque conhece. Quem não sabe o que é a verdade não a reconhece quando a encontra. Assim, como encontrar a verdade se não sei como ela é? E se sei, por que procurá-la? A revelação me cai como boa resposta. Deus revela a verdade a todos e cabe a nós reconhecê-la, buscá-la e conhecê-la. Eis a sacada de Deus, saber o que é a verdade não basta, deve-se conhecê-la! Deus revela a verdade aos homens, a saber, Seu Filho, e cabe aos homens buscá-la, conhecê-la e vivê-la.

A verdade é revelada pelo Pai, conhecida no Filho e vivida através do Espírito. A verdade torna-se possível com o Pai, alcançável com o Filho e praticável com o Espírito.

Jesus ensinou isso: que a verdade não era uma informação nem um estado espiritual, mas uma pessoa, e a comunhão com essa pessoa era a verdadeira vida e o desfrutar do conhecimento da verdade.

Tenho certeza de que pais entendem melhor o Evangelho e o amor de Deus que os solteiros. Hoje já sei sobre o que orar, vou orar para ter um amor dependente e genuíno por Deus como aquele menino tinha por sua mãe. Já tive amostras dessa paixão. Lembro-me de uma vez que me deitei e chorei de alegria por ter entendido o versículo de Hebreus que fala de “o sangue do novo testamento”, chorei muito e escrevi em meu diário algo como, “apenas lembre-se desse dia e da intensidade com que chorastes. Isso basta”. Gostaria de compartilhar o que aprendi desse versículo contando algo que aconteceu comigo. Uma vez, enquanto escrevia uma carta a uma pessoa que amo muito, procurava usar as palavras certas para que ficasse evidente o que sentia. Pensei, “como poderia dizer a essa pessoa que a amo? Acho que a única maneira de realmente colocar meus sentimentos nessa carta seria escrevendo-a com meu sangue, assim saberia que o que escrevo é com minha vida!”, ao pensar isso soltei o lápis, respirei fundo, ajoelhei-me e chorei. Entendi. Cristo nos amou de tal maneira que escreveu “o novo testamento” e a “nova aliança” com seu sangue!

A intensidade daquilo que queria passar àquela pessoa só seria demonstrável quando minha própria vida pronunciasse as palavras “quero que entendas que te amo”, vi isso em Cristo naquela hora e chorei muito.

Espero que um dia possa concretizar todo esse amor que tenho aprendido na vida de uma pessoa que, comigo, será uma. Até lá – se esse lá chegar aqui, é claro! – continuo observando e aprendendo, das crianças, a sinceridade e inocência, dos mais velhos, a maturidade e a experiência, e de mim mesmo, o que não fazer e como não ser!

Para o cristão, o sentido da vida é entender que a vida não tem sentido fora de Jesus (Leia novamente Eclesiastes). Estudo porque tenho que, trabalho porque preciso, mas O sirvo porque quero.

Ninguém entra no Reino sem ter uma dependência e amor sinceros pelo Pai como aquele menino tinha pela mãe. Quanto à malícia e a dependência, devemos ser como crianças. Quando à maturidade e sabedoria, devemos ser homens, assim está escrito.

Guilherme Adriano

Categorias: Reflexões

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