Em virtude da morte do nosso 33° presidente Itamar Franco!

Colocamo-nos a ler Eclesiastes 8.1

“Quem é como o sábio? Quem sabe interpretar as coisas? A sabedoria de um homem alcança o favor do rei e muda o seu semblante carregado.”

Onde estiverem os reis, ali também estarão os sábios, os conselheiros que ajudam o rei a governar. O que o livro de Eclesiastes quer dizer com “semblante carregado”? Salomão, o escritor do livro, é rei e é sábio ao mesmo tempo, mas a resposta não salta aos olhos: o semblante é do rei ou do sábio? O melhor é dizer que é o semblante de um e de outro.

Pense como um sábio da corte. Ele sempre está sobre a pressão de encontrar respostas inteligentes para as perguntas do rei. Se as perguntas do rei fossem simples, fáceis de responder, o rei não precisaria de sábios para compor a corte. Então o sábio se depara constantemente com perguntas difíceis, cheias de complexidades. Imagine um sábio respondendo com propriedade e serenidade uma dessas perguntas, brindando o rei com propriedade e serenidade uma dessas perguntas, brindando o rei com uma resposta exata. O que veríamos? O sábio com um semblante iluminado, satisfeito por aliviar a angústia do rei com sua perspicácia: “viu como eu sou sábio?”. Isso mudaria seu semblante de carregado para aliviado.

Algo semelhante acontece com o rei. Ele tem angústias, está diante de uma situação complexa. Ele quer trocar sua perplexidade por uma resposta e é exatamente essa resposta esclarecedora que sai da boca do sábio. Aliviado por ter encontrado no sábio a saída para uma situação apertada, seu semblante se ilumina: “Agora entendi, tudo ficou claro, que belas palavras desse sábio…”.

Mas a sabedoria do sábio o impede de descansar nessa intervenção bem-sucedida. O livro de Eclesiastes lembra que devemos ficar de olho no rei porque, no fim das contas, “o rei faz o que bem entende” (8.3). O rei bem pode ouvir a opinião do sábio e se alegrar com a resposta  e, depois disso, dar de ombros ao conselho e agir de maneira diferente. Foi o que aconteceu com Roboão, que sucedeu seu pai, Salomão.

Assim que Roboão assumiu o trono, o povo fez uma grita geral, pedindo ao novo rei que diminuísse os pesados impostos cobrados por seu pai. Ele consultou os conselheiros que antes serviram a Salomão, os quais o aconselharam a atender o povo para tê-los sempre ao seu lado.; Ele também ouviu outros conselheiros, amigos de infância. O conselho dos mais velhos era mais sensato e, mesmo assim, ele optou por ouvir os seus amigos. Em vez de diminuir os impostos, ele aumentou, como conseqüência, o reino, que antes estava unido, rachou em dois: Judá ficou de um lado e Israel de outro (1Rs 11.41 – 12.17). O racha foi pra valer e os reinos nunca mais voltariam a se unir.

O rei faz o que bem entende porque é rei. O eclesiastes nos diz que o rei escuta o sábio, mas isso não significa que ele seguirá o seu conselho. Sábio que é sábio sabe que alguns reis estão mais interessados no próprio bem-estar do que no bem-estar do povo que governam. São os que oprimem em vez de servir, que atrapalham em vez de ajudar, que lucram sozinhos em vez de repartir.

Por esta razão o livro de Eclesiastes relaciona o governo com infelicidade: “há ocasiões em que um homem domina sobre outros para a infelicidade”(8.9). Imediatamente deveríamos perguntar: a infelicidade daquele que domina ou daqueles que são dominados? A infelicidade do que está no poder ou de quem está sob um rei que não acata o conselho do sábio?
A tradução Almeida Revista e Atualizada diz que “há tempo em que um homem tem domínio sobre outro homem, para arruiná-lo”. Parece familiar? Faz lembrar o comentário de Millôr Fernandes: “Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim”. O livro de Eclesiastes avisa que não devemos nos iludir com o comportamento do rei, nem de sua herança, Afinal, o rei é honrado e celebrado em sua morte. É a velha verdade de que todo mundo fica bonzinho no dia do enterro. Todos falam bem do rei morto.

Fiquem na Paz!                 @GustavoWoerner

Categorias: Reflexões

Comente pelo Facebook »