Nestas últimas semanas tenho acompanhado as ondas de manifestações e protestos pelo Brasil afora, em especial nas cidades de São Paulo e Belo Horizonte. Nas redes sociais estão bombando imagens, vídeos e textos com protestos e indignação contra a política, a mídia manipuladora, a repressão da liberdade de expressão etc. Parece que o povo brasileiro está realmente acordando. Será?

Apesar de eu estar entusiasmado com toda essa mobilização, confesso que sou bastante cético quanto às reais mudanças que toda essa indignação amplamente declarada possa trazer. Há muito tempo deixei de ser idealista, o que não significa que eu seja um conformado. Apenas perdi o encanto e deixei de sonhar com um país mais digno e mais justo. Vou tentar explicar o porquê.

Infelizmente a maioria de nós é o que se chama de “revolucionário de sofá”. É aquele sujeito que vê as notícias de corrupção na TV, fica extremamente indignado e diz “alguém tem que fazer alguma coisa!”. Essa situação me faz lembrar do trecho de uma música do Skank que diz: “a nossa indignação é uma mosca sem asas, que não ultrapassa a janela de nossas casas”.  Hoje se poderia dizer que a nossa indignação não ultrapassa a tela do nosso computador, ou seja, não passa de uma curtida, compartilhada ou retuitada. Se você não é esse tipo de revolucionário, esse texto não lhe diz respeito.

Protestos e manifestações como estas que estamos vendo podem até começar por uma causa legítima, politicamente apartidária e sem pretensões eleitoreiras. O problema é que cedo ou tarde aparecerão oportunistas que aproveitarão da situação para se promoverem. Digo isso porque, ao meu ver, um movimento não se sustenta por muito tempo sem um líder, um representante.  Se há um protesto é porque há demandas. E que demandas são essas? Quem vai decidir o que é prioridade? Quem vai negociar com o Estado?

Mudança, de fato, requer atitude e uma certa dose de sacrifício. Vou usar aqui um exemplo bem simples. Muita gente está descendo o sarrafo na Copa Mundial de Futebol que acontecerá aqui no Brasil em 2014. Frequentemente vejo protestos contra os milhões que estão sendo gastos na construção de estádios enquanto a educação e a saúde pública estão numa situação lastimável. Mas parece que quando tem um jogo da seleção todo mundo esquece disso. Esquecem que o lazer do qual estão usufruindo é em detrimento de serviços essenciais para a nação. Francamente me enoja ver aquela cena onde os torcedores pseudo-patriotas cantam com certa impetuosidade o hino nacional antes de começar a partida. A melhor resposta que o povo poderia dar pra essa vergonha que estão fazendo com o dinheiro público é boicotando a ida aos estádios e também não assistir os jogos pela TV ou qualquer outra mídia. Ora, nós sabemos que o que movimenta e garante lucros milionários no futebol é a publicidade. Se não que há espectadores é prejuízo na certa. Sem falar no montante arrecadado na venda de ingressos, que eu nem faço ideia que destino tem esse dinheiro todo. De uma coisa estou certo: revertido para o bem estar da população é que não é. Aí eu me pergunto: quem estaria disposto a se sacrificar e abrir mão de ver uma partida do seu esporte favorito? Quem realmente tomaria essa atitude? Pouquíssimos, pois o brasileiro infelizmente gosta mesmo é de circo. O Estado não precisa nem dar o pão, quando muito umas migalhas, pois só o circo já é suficiente.

E o que dizer dos evangélicos no meio disso tudo? Bem, a maioria dos evangélicos disfarçam, dão uma olhada pro lado e fingem que não é com eles. Afinal, eles foram ensinados que devem respeitar as autoridades, pois elas são levantadas por Deus e tudo mais. Devemos, sim, respeito às autoridades, mas como diz o pastor Ed René Kivitz: “quando a submissão aos homens implica pactuar com a injustiça, importa obedecer a Deus”. Nessa hora eu me pergunto: cadê os milhares que marcham pra Jesus com a finalidade de serem contados e dizer “somos muitos”; e os defensores ferrenhos da moral e dos bons costumes que organizam manifestações e protestos contra o casamento gay, mas não tem o mesmo ímpeto quando se trata de defender o direito do pobre e do necessitado?

Embora eu me sinta um tanto desesperançado, sei que estamos em novos tempos e reconheço o poder de comunicação e a capacidade de engajamento que as redes sociais e a internet em geral tem proporcionado. Nunca torci tanto para que eu esteja errado, e que a sociedade me esbofeteie e diga “toma essa, seu otário!”. Espero que toda essa mobilização não seja suprimida pelo entretenimento de massa, pelos jogos políticos, pela mídia manipuladora e pelo esquecimento. Aliás, ter memória curta é outro grande problema do brasileiro.

A minha oração é que possamos mudar, de fato, a nossa nação.

Categorias: Reflexões

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