Passeando por Curitiba no final do ano passado com minha namorada e sua família, vi um adesivo na traseira de um carro que dizia assim, “Jesus é o segredo do meu sucesso!”. Deixando de lado um pouco a crítica à tão surrada heresia da prosperidade, vamos apenas pensar no que o adesivo diz. Suponhamos que o motorista – o muito bem sucedido cristão – seja dono de uma farmácia. Para uma farmácia vender bem e dar bons lucros ao patamar do “sucesso”, surtos de gripes, epidemias, infecções, acidentes, enfim, problemas de saúde devem estar em alta. A lógica é simples: havendo grande parcela da população doente, farmácias prosperam. Mas se o segredo do sucesso do dono da farmácia literalmente for Jesus, o que isso significa? Significa que Jesus anda deixando pessoas doentes para prosperar o irmãozinho da farmácia.

Mas vamos com calma…

Deus disse, “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra!” (Isaías 5:8). Com isso em mente e os ensinos de Jesus contra riqueza, digo que aquele adesivo de carro está culpando Jesus pela miséria do Brasil. Como? Assim:

1- Jesus é o segredo de meu sucesso.
2- O meu sucesso é a causa de muita miséria.
3- Logo, Jesus é a causa de muita miséria.

Para o silogismo ser verdade e a conclusão válida, devo demonstrar a veracidade da segunda premissa que diz que “o meu sucesso é a causa de muita miséria”. Simples, muito simples.

Sabemos que o motivo de muitos terem pouco é o de poucos terem muito – é a questão da má distribuição de renda no Brasil. Por que há tanta pobreza? Ora, porque há muita riqueza! A pobreza, como argumentei em outro texto, não é o problema gerador, mas o problema consequência. O problema gerador é a riqueza. Pobreza é o que sai no cano de escape da riqueza; é o estado em que se encontram aqueles cujas cabeças foram pisoteadas pelos que chegaram ao topo.

Pense assim, se há apenas 5 pães e 10 pessoas famintas, vamos ter que dividir. Mas se lá vier um Eike Batista da vida e decidir comer dois pães sozinho, ou o resto come menos ou alguém fica com fome. A lógica sempre é essa, onde poucos comem muito, muitos comem pouco. John Wesley escreveu sobre a raiva que Deus deve ter por aqueles que se vestem com o suor e se fartam com a fome dos outros. É o caso do Brasil, oh se é! O Brasil é um país de alguns que “ajuntam casa a casa, campo a campo, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra”; onde muitos têm dinheiro demais, e não só mais do que precisam, mas mais do que muitos precisam! Renato Russo disse bem quando indagou em sua música Índios, “Quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante”.

Lembro-me de há um tempo ter visto essa reportagem sobre férias na praia de Jurerê internacional em que um turista rasgou dinheiro para as câmeras e disse que “ali era lugar de rico milionário”, ou seja, de gente de sucesso – como aquele irmãozinho que fez questão de anunciar sua exaltação por Jesus! – e os vinte reais que rasgava não eram nada. Mas filho do diabo é assim, porque não passa fome faz os outros passar.

De acordo com Jesus, ser rico é um problema, ser pobre não. Mais da metade dos ensinos de Jesus está associada à crítica à riqueza. Mas então o cristão não pode ser rico? Pode ficar rico, mas não permanecer rico, não se for coerente com a Bíblia. Cristão que enriquece imita Jesus, “abandona sua Glória” e “desce” para os pobres para torná-los ricos, mas isso já é outro assunto…prefiro ficar com a crítica ao adesivo.

Ter sucesso, no meio Evangélico, é ficar rico. Eu sei que a palavra sucesso pode ser interpretada de várias maneiras, e adoraria que os evangélicos entendessem isso, mas não, entendem-na apenas no sentido monetário. Ter sucesso é ter dinheiro e bens. Estou generalizando? Claro que não, estou apenas ecoando o ensino dos cinco pastores mais ricos do Brasil, de acordo com pesquisa recente. As igrejas deles somadas são a maior fatia de evangélicos brasileiros. Cada um desses grandes pastores tem uma Bíblia de estudos de vitória financeira, livros e pregações que ensinam exatamente esse sucesso; que ensinam a “chegar lá” e ser um Salomão, um Davi – engraçado que muitos querem ser esses dois, mas poucos querem ser um Jesus, um Pedro. Os rebanhos evangélicos olham para os ‘grandes’ e deles derivam o significado de ‘sucesso’.

Então para esses, sucesso é ter muito. E como vimos, ter muito é fazer com que muitos tenham pouco. Assim se comprova a blasfêmia daquele adesivo de mau gosto e mal intencionado, pois creiam-me, irmãos, o motivo do adesivo não era o de evangelizar, e sim o de exibir o carrão!

Para aquele homem em cujo carro vi o adesivo, sucesso era ter um carro novo e, provavelmente, muito mais. Aquele homem não estava afirmando nada que Macedo, Malafaia e afins já não afirmaram antes. E, irmãos, se Jesus é o segredo dessa gente, então Jesus é o culpado por grande parcela da miséria do povo porque decidiu dar muito a poucos e deixar muitos com pouco. Esse não é o Jesus que li na Bíblia.

Guilherme Adriano

Categorias: Reflexões

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