Quero começar dizendo que, sério, essa série é muito boa, muito engraçada e repleta de reflexões profundas, um baita livro e uma baita história! Douglas Adams, o autor dessa ótima ‘trilogia de cinco livros’, foi um ateu radical e militante – imagine só, Richard Dawkins o admirava! Obviamente, sua mais famosa série de ficção, O Guia do Mochileiro das Galáxias, é repleta de diálogos e crenças pessoais que tiram sarro da crença em Deus, do sentido da vida, etc. Mas, ainda assim, é possivel tirar dali – e de quase qualquer outro livro – muitas coisas boas!

Quero compartilhar uma reflexão a respeito do papel da filosofia, do filósofo e do cristão.

No livro, cansados de perguntas a respeito do sentido da vida e tudo mais, dois grandes programadores se unem e constroem um megacomputador para pensar no sentido da vida. No entanto, nem todos ficaram felizes com essa ideia. Dois filósofos, furiosos, invadem a sala de controle do computador e dizem:

Essas máquinas têm mais é que fazer contas – disse [o filósofo] –, enquanto nós cuidamos das verdades eternas. Quer saber a sua situação perante a lei? Pela lei, a Busca da Verdade Última é uma prerrogativa inalienável dos pensadores. Se uma porcaria de uma máquina resolve procurar e acha a porcaria da Verdade, como é que fica o nosso emprego? O que adianta a gente passar a noite em claro discutindo se Deus existe ou não pra no dia seguinte essa máquina dizer qual é o número de telefone dele? [1]

Bingo! É isso mesmo! Adams entendeu as implicações de encontrar a Verdade. Se alguém a encontrasse, toda busca acabaria; consequentemente, tudo que não se adequasse à Verdade seria descartado como falso e retrógado. De certa maneira, foi isso que aconteceu quando Jesus veio a Terra, todas as filosofias que buscavam a verdade acabaram. Com calma, não quero dizer que a revelação religiosa anula a filosofia, não, mas que a busca filosófica pela Verdade teve sua resposta em Cristo Jesus. Muitos filósofos não ficaram (e não ficam!) felizes com essa ideia, como Adams mesmo descreveu, como diz, “do que adianta ficar pensando se Deus existe se no dia seguinte vem alguém com o número de telefone dele?” Muitos filósofos, pensadores, acadêmicos e outras raças em extinção admiram a busca pela Verdade, mas temem com toda sua alma um dia encontrá-la. Querem perguntas, mas não respostas. E por que não? Porque se encontrarem a Verdade, e Ela não for aquilo que esperavam, terão de se moldar a Ela. Em outras palavra, terão de mudar de vida.

Vejo o seguinte, – e não falo com preconceito nem ignorância, pois quem me conhece sabe que sou amante de filosofia e considero muito antes de falar algo – a filosofia promete algo que até hoje não pôde cumprir: o conhecimento da verdade. Pelo menos até os dias de hoje ela se caracteriza, como muitos filósofos já disseram, como sendo uma busca pela verdade, portanto ela não é um fim em si mesmo. Ela é boa e construtiva quando sai em busca do conhecimento de uma verdade revelada ou conhecida, de outra maneira, acaba se perdendo quem não sabe o que procura.

Pois se procuram algo que não sabem o que é, como saberão o que encontrar; como reconhecer o que se procura sem saber o que é? O homem que não sabe o que procura nunca vai parar de procurar.[2]

Irônico fato este: o filósofo diz-se amante da verdade, porém afirma não conhecê-la; condena o homem que não a procura e também o que disse tê-la encontrado. Rotula de ignorante o homem que não a compreende e de soberbo o que diz compreendê-la; sábio o que pergunta com convicção e presumido o que responde de igual modo. Sinto que pensam algo como ‘procurar é majestoso, encontrar é desnecessário’. Às vezes me pergunto se de fato os filósofos estão procurando respostas para suas perguntas. Até parece que uns estimam mais a procura do que o objeto procurado. Infelizmente, muitos são amantes de perguntas e não de respostas; de filosofias e não da filosofia.

 A Filosofia é uma busca, o Evangelho é uma doação. Não é por nada que alguns dos primeiros líderes da igreja foram filósofos gregos que diziam ter encontrado a Verdade que os filósofos tanto procuraram no Evangelho. 

Os dois filósofos irritados e com medo de perder o emprego, em O Guia do Mochileiro das Galáxias, estavam certos em temer que alguém achasse a Verdade, pois seus empregos dependiam de manter pessoas na busca, no desejo, na reflexão apenas. Se alguém chegasse com a resposta, perderiam suas carreiras e prestígio.

Mas então qual é a relação da Filosofia e da Revelação Cristã? Sou da opinião de que a filosofia nunca encontraria a Verdade, por isso Ela nos foi revelada, e para surpresa de muitos, Ela não era algo, e sim alguém. Ela era Ele! Agora a Filosofia tenta compreender Ele. Compreender tem a ver com abraçar o todo, descobrir outras perspectivas. Logo, a filosofia não morreu, ao contrário, começou!

Para mim, todos os ramos da filosofia (todos mesmo, principalmente o ateísmo, que não se cansa em culpar o Deus em que não acreditam pelos atos que não creem que aconteceram!) têm algo que aponta a Deus e Seu Filho.  Tudo contribui de certa forma a Seu conhecimento.

Para terminar, aos furiosos e receosos filósofos de Adams e muitos outros como eles, lhes trago o que mais temiam: o número de telefone de Deus: Jesus Cristo.

Guilherme Adriano

[1] O Guia do Mochileiro das Galáxias, pg. 127

[2] Indagação feita entre Sócrates e Mênon. Platão, Mênon 80d-81a

Categorias: Reflexões

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