Fez pouca diferença na minha vida ter uma casa e não ter um lar; é clichê dizer isso, mas se é, é porque é uma verdade supersaturada. Pra mim, não ter um lar, ou seja, não fazer parte de alguém, foi motivo de muita angústia. É coisa terrível não ter alguém para quem voltar à noite ou nos fins de semana, e é o relacionamento que surge com esse alguém para quem sempre se volta que estabelece um lar, penso.

Em termos cristãos, dizemos que a igreja é o edifício espiritual que se ergue em torno dos relacionamentos cristocêntricos, isto é, “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estarei.” A igreja é o lar provisório que Deus providenciou enquanto redime a humanidade.

A palavra lar está, ao contrário da palavra casa, ligada à palavra família, seja essa como for. Perceba que em inglês os mendigos são chamados de homeless (os sem lar), e apesar de até terem um teto (abrigos, dormitórios, etc.), não tem um lar, logo, sua condição de andarilho não muda. Andarilho é alguém que anda por aí sem propósito à procura de um lugar onde o coração se assente. Eu era andarilho, e sempre tive casa (quem me conhece entende que tipo de andarilho eu era). Quando não se tem lar, ficar em casa ou em qualquer outro lugar não faz diferença, pois o coração fica inquieto do mesmo jeito.

Casa ainda não tenho, mas lar sim. Antes, não tinha nem um nem outro. Por mais ou menos uns 3 anos não tive lar. Por angustiado que era, dormia em sofás de uns, em quartos improvisados e emprestados de outros, em closets de uns aí, em colchões no corredor de outros lá e, às vezes, no apartamento onde moro (aliás, obrigado a todos que já me abrigaram com tanta hospitalidade por tanto tempo!

Sentia-me terrível por ter de ir para cama sem a perspectiva de acordar no dia seguinte com o sorriso de alguém que espera te ver despertar. Encontrar alguém a quem chamar de lar foi, para mim, o final de uma árdua caminhada, literalmente falando!

Hoje, como cristão, arrependo-me de não ter aproveitado o lar que minha vó me dava. Com profunda tristeza me recordo de uma noite: tinha mais ou menos 12 anos de idade e nunca parava em casa; vivia correndo por aí e deixava minha vó, na época com muitas complicações de saúde, em casa sozinha. Numa noite, então, disse, “Noninha, vou sair, tchau!”, no que ela rapidamente replicou chorando, “mas você sempre me deixa sozinha, que saco, não aguento mais ficar sozinha toda noite, toda noite, sempre sozinha aqui vendo televisão!” Na época, não dava bola para ela e saí de qualquer forma deixando-a lá sozinha. Fiz isso várias vezes, mas que me lembro de Noninha (assim chamávamos ela) ter chorado, foi apenas uma. Esse episódio me faz chorar toda vez que me vem à memória, e é um que faço questão de levar para sempre bem vivo na lembrança para, hoje, valorizar o lar que tenho. Querida, para minha falecida Noninha, ter um lar era ter gente em casa com ela comendo pão, linguiça, nata, tomando café e conversando sobre a rotina.

Quando percebemos quão queridas nos eram certas pessoas apenas quando as perdemos, ficam em nós como boas lembranças todos aqueles momentos que, na época, não considerávamos preciosos.

G.K. Chesterton, na abertura de O Homem Eterno, escreve que “há duas maneiras de chegar em casa, e uma delas é ficar por lá.” No caso da narrativa Bíblica, não foi assim que aconteceu. A Bíblia abre em Gênesis com Deus tendo de expulsar o homem de seu lar e fecha em Apocalipse com esse homem voltando para casa; ela abre com a expulsão e fecha com o retorno, o que acontece no meio são só andanças. O Gênesis mesmo abre com Deus criando Adão e termina com o enterro de José – um fim trágico para um livro que começa com a tão incrível impressão divina na raça humana! A Bíblia conta a maior história de homeless people do universo! Mas ainda em Chesterton, ele diz que a segunda maneira de chegar em casa “é caminhar e dar a volta ao mundo inteiro até retornarmos ao mesmo lugar”, no caso da humanidade, a Deus.

Saímos do nosso lar, mas um dia voltaremos a Ele, no entanto, segundo Jesus, não todos para o mesmo destino. Fatalmente todos saíram de Deus e voltarão à Sua presença. Assustador isso! Achamos, às vezes, que esse é o nosso lar, mas nosso coração nos diz diferente, sempre (eis milênios de filosofia e religião para embasar o que digo!)

Larry Norman, em uma de suas músicas, dizia que estava “apenas visitando esse planeta.” John Bunyan escreveu a fantástica obra O Peregrino, cuja história é a longa peregrinação de Cristão até finalmente chegar à sua cidade celestial. Agostinho escreveu o clássico da teologia cristã Cidade de Deus, onde argumenta que a cidade dos homens nunca será a de Deus, e que essa ainda está por voltar. Para Lewis, é Nárnia e não o mundo fora do armário que é o verdadeiro lar. O próprio Senhor Jesus nos disse que se Seu Reino fosse desse mundo, lutariam Seus súditos para protegê-lo, no entanto, o Reino d’Ele não é desse mundo, e Ele vai para preparar nossa morada junto ao Pai.

Enquanto espero o lar divino sobre o qual tantos irmãos já brilhantemente escreveram, faço aqui um lar provisório para meu coração e alma andarilha até que Ele volte e me una a quem amo de maneira eterna.

Guilherme Adriano

Categorias: Reflexões

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