O protestantismo nasceu levantando a bandeira da salvação exclusivamente pela graça de Deus. Assim, é estranho afirmar que vivemos numa Igreja sem graça. Se você já frequentou qualquer reunião de estudo bíblico na sua Igreja, é possível que conheça o tradicional jogral: “graça é um favor imerecido de Deus”. Mas o que acontece depois que dizemos a frase ensaiada? Nada! É simplesmente uma vã repetição.

Falamos tanto em graça mas, em quase três décadas vivendo com evangélicos, tenho visto pouca ou nenhuma graça entre os filhos de Deus. Lembro, como se fosse ontem, do dia em que uma pessoa da Igreja chegou no quintal da minha casa e, ao ver uma moça crente vestida com calças compridas, soltou a pérola: “Cuidado pra não estar vestida assim quando Jesus voltar!” Naquela hora o sangue (não o de Jesus!) me subiu à cabeça. A Salvação é de graça, mas as mulheres têm que estar de saia para merecê-la? Graça é graça! Ninguém merece.

Tem uma passagem bíblica que me angustia bastante e que me faz achar tão difícil viver numa igreja (reparou o “i” minúsculo?!) sem graça. Na primeira carta de Paulo aos Coríntios (cap.10), o Apóstolo nos adverte sobre a necessidade de agir conforme nossa própria consciência, mas evitar fazer o que causa escândalo aos mais fracos. Agora me diga: como agir com a liberdade com que Cristo nos libertou, sem escandalizar os irmãos, se vivemos em igrejas onde todos vivem debaixo de regras (leia Colossenses 2:20-23) que determinam o que não se pode ser/fazer e onde tais regras determinam o “grau de santidade” de cada crente?

É terrível fazer o que se sabe que não é errado e ter que viver como um fugitivo, se escondendo para que os “juízes de Deus” não te condenem. E como é difícil não ser motivo de tropeço para os fracos que ainda não foram apresentados ao Deus Gracioso e, por isso, acham que podem alcançar o céu por mérito. Repito: ninguém merece! Ninguém é capaz de fazer-se merecedor do amor e da Salvação de Deus.

É muito interessante observar como, com o passar do tempo, anulamos a graça de Deus através das regras que nós mesmos criamos. Um exemplo do que estou querendo dizer é a televisão. Eu nasci na década de 80 e, apesar de ter nascido num lar pentecostal, pasmem vocês, minha família subversiva tinha uma TV dentro de casa! Isso era um absurdo entre os pentecostais. Alguns anos depois, quase não se fala mais da TV como “janela de Satanás” e, as mesmas igrejas que a condenavam, hoje a usam para fazer proselitismo.

Não deveria ser assim, mas viver entre irmãos que não estão interessados em nos julgar ainda é um sonho. A coisa é tão enraizada que, muitas vezes, cometemos esse delito sem perceber o que fizemos e o quão nociva é tal atitude para a saúde espiritual do Corpo de Cristo. Gosto muito de um trecho de uma canção* do Padre (“Um padre, João?! Mas você não é protestante?”) Fábio de Melo cuja ideia, penso eu, deveria ser apresentada para a Igreja o tempo todo: “Quem faz da santidade uma vaidade, possivelmente já esqueceu que muitas prostitutas nos precedem na entrada do Reino dos Céus”.

Quem, entre os homens, é capaz de determinar quem entra ou não no Paraíso? Qual homem é capaz de criar regras absolutas que nos conduzam a Deus? Quem de nós pode dizer, sem estar mentindo, que nunca cometeu um deslize? Quem, além de Deus, é capaz de olhar pra mim e pra você e sondar pensamentos e sentimentos? Ninguém!

Assim pergunto, como tenho coragem de olhar com desprezo (claro que movido pelo “zelo evangélico”) pra uma prostituta, pra um fumante, pra uma mulher de calça, pra um homem tatuado, pra um viciado etc e ainda afirmar que eles não estarão comigo no céu? Sinceramente, não tenho coragem, simplesmente porque não tenho certeza. O Livro da Vida não está guardado numa gaveta do meu quarto. Deixemos que o dono do Livro decida com que Ele quer passar a Eternidade e vivamos, aqui na Terra, aquilo que Jesus nos ordenou: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Abraços! João Marcos.

Categorias: Reflexões

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