Já começo respondendo: não existe.

Não no sentido místico. Sorte dá a noção de que há um poder mágico e universal que favorece alguns às vezes. Isso não existe, o que existe são o acaso e a intervenção de Deus. Num universo governado por leis naturais há muito espaço para o acaso. Para que fossemos livres, um universo como o nosso era necessário, e o acaso é parte integral dele.

Fomos criados livres, e nossas escolhas devem ter resultados previsíveis para que possamos aprender. Nunca poderíamos viver tranquilos se toda vez que jogássemos uma pedra para cima algo diferente acontecesse com ela e conosco. Imagine se, às vezes, quando jogássemos uma pedra para cima ela explodisse, outras vezes pairasse no ar e outras vezes caísse. Nunca poderíamos ter certeza do que aconteceria em nenhuma situação num universo que tratasse as pedras jogadas para cima aleatoriamente. Mas não, a lei da gravidade diz que se jogarmos uma pedra para cima, a menos que seja interceptada por algo, ela cairá, já as leis de inércia dizem que será com tanta velocidade e momento, e as leis da biologia que, se cair numa cabeça, dependendo do tamanho e da velocidade, machucará. Podemos prever todas essas coisas. No entanto, como somos livres, podemos escolher andar embaixo dessa pedra enquanto estiver no ar e acabar sendo atingido por ela. Foi azar? Não, foram apenas consequências de ações de seres livres que repercutiram de maneira a produzirem um galo na minha cabeça, oras.

Evito usar a palavra “sorte” por ela ter conotações místicas etimologicamente falando. A palavra ‘sorte’ vem do Latim ‘sors’, que significa ‘parte, porção, o que cabe a cada um’, como se houvesse uma força na natureza ou divina que tivesse um destino, uma porção de algo reservado para você e fosse lhe entregando aos poucos ao longo de sua vida. Isso é superstição. Não existe sorte nem azar, só existem interpretações de coisas que acontecem.

Outro exemplo: você está andando na rua e encontrou uma nota de 100 reais que não é de ninguém ao redor. Será que alguma força do destino lhe entregou aquela nota? Não. Você a achou, e só, aconteceu, poderia ter sido qualquer outra pessoa ou também poderia ter sido ninguém. Não foi sorte, mas acaso, pois quando perdi 100 reais, perdi num centro onde havia várias pessoas andando. Muito provavelmente alguém acharia esse dinheiro, afinal, é difícil não ver uma nota de 100 reais dando sopa no chão! Esse alguém teve sorte? Não, acaso. Nenhuma força mística fez o dinheiro sair do meu bolso muito menos ir ao encontro de um afortunado por aí.

Quando as consequências não planejadas de certas ações repercutem em benefícios para alguns, o místico interpreta o ocorrido como ‘sorte’, quando resultam em malefícios, interpreta como ‘azar’, no entanto, tudo que houve foi acaso. Isso se aplica para a maioria dos eventos humanos. Ações livres têm consequências previsíveis e imprevisíveis, e essas podem resultar em benefícios ou malefícios para quem estiver de alguma maneira perto o suficiente para sofrê-las.

Como cristão, às vezes atribuo o improvável à mão do Senhor, mas essas situações são raras demais, na maioria das vezes é acaso mesmo, e os cristãos custam a entender isso, principalmente os calvinistas, que na maioria das vezes são fatalistas, acreditam que tudo que acontece foi predeterminado – não me odeiem por isso, e se me odiarem, não é minha culpa, mas Deus me predestinou a dizer isso!

No que diz respeito à liberdade de nossas ações, estou em pleno acordo com os existencialistas, tanto cristãos quanto não-cristãos, quando dizem que a vida é o que você fizer dela, que não recebemos destino algum de ninguém, mas fazemos ele a partir de escolhas.

Como cristão, sugiro que não busque depender da intervenção divina nem do milagre, antes, escolha bem e aprenda a ter responsabilidade para lidar com as consequências de suas escolhas. Saiba que seja o que for que escolher, haverá consequências para muitos outros, então meça bem suas escolhas. Tente sofrer a desgraça do acaso como o Senhor sofreria e aproveitar seus benefícios da maneira mais cristã possível. Na dúvida, agradeça a Deus por tudo, mas na dúvida, não culpe Deus, apenas chore o maldito acaso.

Guilherme Adriano

Categorias: Reflexões

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