“Estamos engordando espiritualmente”. Essa foi uma frase que ouvi de uma menina que era integrante do grupo de juventude o qual eu participava. Naquela época eu tinha pouco tempo de convertido, mas entendi bem o significado dessa afirmação. Ela quis dizer que estávamos caindo num comodismo religioso. Embora eu tenha entendido o que ela quis dizer, aquilo para mim não era uma realidade, não naquele momento. Eu estava no início da minha caminhada de fé – o que ocorreu há uns 8 anos aproximadamente – e eu tinha muita sede da Palavra, de conhecer, de estudar e de entender o Evangelho. Era tudo novo e, como menino na fé, eu ficava maravilhado com as descobertas que fazia. Eu vivia o que se costuma chamar de “primeiro amor”. Mas, a certa altura da minha caminhada, confesso que fui perdendo o encanto – não a fé, mas o encanto. Talvez você já tenha passado ou esteja passando por isso: parece que é tudo muito do mesmo. Casa, trabalho, igreja. Casa, trabalho, igreja.

Obviamente eu tinha – e ainda tenho – lutas, provações e tentações como qualquer cristão que se presa tem. Nesses momentos eu sentia – e ainda sinto – Deus me carregando e provendo o meu sustento.

A questão era que com o passar do tempo, mesmo sempre procurando lutar contra o comodismo, eu comecei a sentir que estava vivendo um evangelho individualista e terapêutico: eu me sentia bem e contente comigo mesmo e estava contente com a minha vida religiosa, ou seja, estava engordando espiritualmente. É o que a Bíblia chama de uma vida espiritual morna. Lembram-se do que comentei acima sobre ter perdido o encanto por aquilo que antes era novo para mim?

Suponho que essa perda do encanto se dá ao fato de eu ter estreitado o Evangelho a uma melhora moral do ser humano. É como se Jesus tivesse vindo apenas para dar um punhado de bons conselhos e uma lista de boas práticas à humanidade. Obviamente que um bom comportamento é também um testemunho. Mas não é só isso, o foco não pode estar em mim. Segundo as palavras de Jesus em Mateus 5.14, Ele diz que somos a luz do mundo, ou seja, somos seres luminosos, que apontam para alguma coisa, que trazem luz, que mostram alguma coisa. Mais adiante, no vs. 16. Jesus diz que a nossa luz deve brilhar diante dos homens para que eles vejam as nossas boas obras e glorifiquem a Deus por isso. Essa luz é a expressão de uma nova natureza que temos, que é a própria vida de Cristo em nós. Portanto podemos entender que as nossas boas obras não são atos da nossa boa vontade, mas antes um resultado da nossa luminosidade. E a nossa luminosidade, como falei antes, é a expressão da nossa nova natureza. Então precisamos buscar saber qual é a nossa natureza e que tipo de boa obra ela produz. Você pode estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com engordar espiritualmente e tudo mais? O que estou tentando fazer aqui é ampliar um pouco mais a visão que alguns tem do que é ser cristão e, a partir disso, evitar que caiam no comodismo religioso.  Mas como eu ia dizendo, precisamos buscar saber qual é a nossa natureza e que tipo de boa obra ela produz. A nossa nova natureza está descrita nas bem-aventuranças do Sermão do Monte em Mateus 5.3-11. Para não ser muito extenso, eu vou falar apenas sobre a primeira delas, onde Jesus diz: bem-aventurados os humildes de espírito. Você já se perguntou o que é ser humilde de espirito? Como você definiria em poucas palavras o que é ser humilde de espírito? Costuma se relacionar a humildade com a pobreza. Às vezes quando queremos dizer que alguém é pobre, dizemos a pessoa é humilde, ou tem uma aparência humilde. Certamente a humildade a qual Jesus se referia não tem a ver com a condição social de uma pessoa.

Ser humilde de espírito significa reconhecer que é dependente de Deus. Todo mundo é dependente de Deus, mas nem todo mundo sabe que depende de Deus. Todo mundo (inclusive nós cristãos) depende de Deus, mas nem todo mundo (inclusive dentre nós cristãos) vive e age como se dependesse de Deus. Quando sabemos que dependemos de Deus, nós tratamos o outro como igual. Eu trato o outro como meu semelhante, que tem a mesma dignidade do que eu, que tem a mesma importância que eu, que tem as mesmas possibilidades do que eu, que é tão amado quanto eu e, portanto, somos solidários, somos comunidade, todos dependentes de Deus, que não exclui ninguém, que não discrimina ninguém. Jesus diz que bem-aventurados (felizes) os humildes de espírito. Nós somos felizes não porque como co-dependentes de Deus tratamos o outro como igual, mas porque graças ao Cristo que está dentro de nós, Deus reina em nós. E isso vai além do bom comportamento, porque tem a ver com o que a gente é e não com o que a gente faz; tem a ver com vivência, com relacionamento, onde são geradas novas expectativas de viver em comunidade, de ver o outro, de amar, de fato, o outro. Essa nova compreensão da realidade de uma vida cristã me remete ao encanto que tinha lá no começo da minha caminhada.  Quando vemos a vida cristã dessa perspectiva, onde o foco está na obra que Cristo fez na minha vida e pode fazer na vida de outras pessoas, sempre haverá espaço para o novo.

A minha oração é para que não percamos o encanto pelas coisas do Reino e que ajudemos as pessoas a continuarem se maravilhando com o que Cristo fez, faz e ainda vai fazer.

Um abraço a todos e fiquem na Paz.

Eduardo / @edukokinho

 

Categorias: Reflexões, Testemunhos

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