Depois de ter terminado a leitura de um gigantesco livro de história, tive a vontade de escrever esse texto falando sobre o que há em comum entre as revoluções culturais do século XX e a mentalidade da cristandade e pastores evangélicos. Se você for ler apenas por cima, dê o fora. Vai fazer outra coisa. Como professor, devo insistir que se for pra ler, leia mesmo.

O tédio é uma das armas de convencimento mais poderosas: basta que você fique sem fazer nada produtivo por certo tempo para que aquilo a que você dizia “nunca” venha a ser um “talvez”, e não muito tempo depois um “ah, quer saber…vai isso aqui mesmo”. O tédio é poderoso! Foi ele que deu luz à filosofia existencialista, segundo a revista Filosofia. Foi por tédio que muitos artistas criaram obras primas. Foi o tédio que levou pessoas a saírem em busca de novos mundos. Foi o tédio que levou Salomão a escrever Eclesiastes, em minha opinião, o livro mais profundo da Bíblia. E também foi o tédio que me fez assistir a um culto da Universal pela televisão às 3 da manhã. Sim, sim, eu sei, todos sabem que a Universal isso e a Universal aquilo…todo mundo já sabe a palhaçada que acontece lá dentro; já estamos cansados de saber que o Macedo está sem crédito até dentro do rebanho dele. Conversar sobre a banalização do Evangelho já é banal. Mas será que essa gente não conhece a palavra “limite”? Mas como são criativos! Na verdade não é nada novo, é apenas o velho discurso de sempre, só que mais explícito agora. “Última chance do ano de participar da seção de descarrego e assim eliminar todas suas energias negativas e começar o ano zerado”, disse o pastor. Mas espere! Não é só isso! “Também adquira sua camiseta (que dizia: tu és fiel) que foi ungida com óleo santo e consagrada com muita oração no oratório da igreja blábláblá…”

O professor de história eclesiástica Marcos Mendes Granconato, em uma crítica ao movimento neopentecostal escreve que há “falta de interesse no estudo bíblico sério e profundo. O neopentecostal é um grande ignorante da Palavra de Deus. Ele não vê o estudo teológico como algo importante. Geralmente ele diz que estudar a Bíblia ou a teologia é uma prática carnal. Para fundamentar essa crença, é usado 2 Coríntios 3.6 (interpretam equivocadamente a frase “a letra mata” como uma censura de Paulo contra o estudo!!!). O que existe na verdade é uma imensa preguiça intelectual e uma falta absoluta de interesse pelo que Deus ensina em sua Palavra. Assim, não há ênfase na pregação e no estudo sério das Escrituras no meio neopentecostal. A ênfase maior é no louvor, nas supostas curas, nas expulsões de demônios, nos cultos de libertação e coisas do tipo.” Em outro comentário, se não me engano em pregação, ele diz que o movimento neopentecostal “não sobrevive ao estudo.”  Gostaria de sugerir uma abordagem não teológica para desmascarar o movimento. Na verdade, desmascarar não é a palavra exata, pois essa gente já está sem máscara, sem calças, sem vergonha, sem crédito e sem Deus. Diria então para entender sua ascensão e popularidade.

Em minha refutação ao livro 21 dias para transformar sua vida (disponível para download aqui) escrevi que “o teólogo brasileiro Augustus Nicodemus escreveu em seu artigo ‘a alma católica dos evangélicos no Brasil’, que os evangélicos nunca conseguiram se livrar completamente da herança religiosa que os católicos deixaram nesse país, e em virtude disso, têm importado para dentro do evangelicalismo elementos essenciais do catolicismo romano, e entre eles, o gosto por bispos e apóstolos, e a ideia de que pastores são mediadores entre o povo e Deus. Isso explica a facilidade que os pregadores da prosperidade encontram em fazer discípulos, pois basta apelar a essa mentalidade já formada, e impor-se como ungido de autoridade e de poder de cura para cair nas graças do povo, que por sua vez, cultuará a personalidade do ungido. Enquanto os católicos adoram os ídolos de pau e pedra, os evangélicos adoram os de carne e osso.” Pense nisso. Agora some isso ao fato de o século XX ter sido o século do culto à personalidade e começarás a entender a popularidade dos televengelista$ brasileiros.

 As revoluções culturais ocorridas ao longo do século passado foram essenciais para o sucesso dos pastores neopentecostais. As histerias coletivas causadas por Elvis Presley e os Beatles geraram, nos Estados Unidos e na Europa, uma cultura pop de idolatria à personalidade que mais tarde seria exportada para o mundo todo. Meninas queriam tocá-los a todo custo; cabelos, roupas, trejeitos e linguajar eram copiados por rapazes. Logo nas décadas seguintes (final de 1960 e 1970) o movimento todo se intensificou com os hippies. Multidões de jovens se reuniam para ver seus ídolos rebolando, cantando, pulando e pregando suas filosofias de vida. Percebam como esse adestramento da mentalidade; essa indução à idolatria colaborou para a aceitação e popularização dos pastores dos revivals americanos. Como exemplo, cito **Marjoe Gortner.

Marjoe foi um desses pregadores do fogo! Falava em línguas, pulava, gritava aleluia incessantemente, exclamava o quão real Deus se fazia onde ele o pregava, derrubava os fiéis na unção, vendia amuletos ungidos, arrecadava ofertas de sacrifício e batizava pessoas com o Espírito Santo. Nada muito diferente dos pastores, bispos e apóstolos que vemos hoje em muitas igrejas a não ser pelo fato de ele ter se revelado ao mundo como uma fraude através de um documentário autobiográfico lançado em 1972. Depois de anos pregando a mesma coisa (e da mesma maneira como se prega hoje!), Marjoe, cansado de sua própria hipocrisia, se revela ao mundo dizendo que “nunca na verdade acreditara em Deus”, mas fazia tudo pelo dinheiro fácil. Afirmou ser fã de Mick Jagger, vocalista da banda Rolling Stones, e que tentava imitar suas reboladas no púlpito enquanto pregava. Também confessou como era fácil arrecadar grandes somas de dinheiro em apenas uma noite e deu dicas para outros evangelistas lucrarem mais de seus ministérios. Antes de entrar para seus cultos exortava sua equipe de cameraman a ser discreta, não cair no riso pelo falatório em línguas estranhas ou espasmos nem deixar seu semblante ou visual denunciá-la. Com a maior frieza, após os cultos, dirigia-se aos fundos da igreja com a sacola da oferta e a repartia com o pastor local. Já em seu quarto de apartamento derramava um saco cheio de dinheiro sobre a cama e, cantarolando “Jesus is so good to me, praise the Lord!”, confessava que “não fiz muito dinheiro como fazia antes (com a cristandade). O negócio está caindo” .

Mas não pára por aí. O século passado também foi o século das celebridades de Hollywood e dos heróis do esporte. Dessa maneira, todo o glamour e regalias das celebridades de cinema, televisão e esportes mais o impacto dos ícones da música influenciaram gerações e gerações de jovens e introduziram-nas à idolatria. Com a popularização da MTV e o advento da internet, o culto à personalidade dos artistas e celebridades se intensificou. Agora era possível não apenas ter um cartaz do seu ídolo na parede do quarto, mas também assisti-lo em seu reality show, acessar seu blog e comprar seus produtos.

Os fatores culturais e religiosos ajudaram a formar uma mentalidade predisposta a aceitar o culto de uma personalidade carismática que sabia se impor, assim, caindo nas graças do povo. Depois da ditadura quando o Brasil abriu suas portas para a cultura fast-food americana, nunca mais foi possível deter a torrente de entretenimento e cultura pop-americana de invadir as mentes jovens. E, claro, com ela veio a religião. O lixo evangélico (teologia da prosperidade) que foi achando espaço lá, aos poucos migrou para cá e criou raízes na igreja brasileira

A megalomania das celebridades encantou os pastores que também quiseram tamanho prestígio. Os altos cachês das bandas seculares encheram os olhos dosrock stars evangélicos e seus shows serviram de base para a adoração moderna. Cultos viraram shows e a fé virou produto. Diarmaid McCulloch, autor do livro e documentário Uma História do Cristianismo, comentou que a teologia do século passado foi a teologia de um “Jesus a serviço do capitalismo”. Ao invés de pregar o Evangelho e ensinar a cristandade a se conformar com a imagem de Cristo, esses falsos mestres fazem comércio com a fé.

Como sempre, as “multidões se cercam de mestres segundo suas próprias cobiças e se recusam a dar ouvidos à verdade”, no meio dessa “grande apostasia” a Noiva de Cristo sofreu, mas permanece fiel ao seu Senhor e Deus. Mas como Marcos Mendes comentou, o neopentecostal é ignorante, não no sentido pejorativo, mas no sentido exato da palavra: ele ignora a Palavra de Deus e a história.

Como sempre, as “multidões se cercam de mestres segundo suas próprias cobiças e se recusam a dar ouvidos à verdade”, no meio dessa “grande apostasia” a Noiva de Cristo sofreu, mas permanece fiel ao seu Senhor e Deus. Mas como Marcos Mendes comentou, o neopentecostal é ignorante, não no sentido pejorativo, mas no sentido exato da palavra: ele ignora a Palavra de Deus e a história. Assim como aquele pastor da universal, muitos outros são o produto natural da crescente celebrização dos sacerdotes das religiões pseudo cristãs.

É fácil cativar um público que há anos vive em cativeiros. O povo brasileiro, graças à mídia, vive em cativeiros culturais. Segundo a notícia do diariosp do dia 17 de Outubro do ano passado, “No Brasil, o apresentador e empresário Silvio Santos é a pessoa mais admirada do mundo e da história, ficando à frente até de Jesus Cristo, de acordo com pesquisa realizada pelo instituto inglês Future Poll […]” Fica fácil para um pastor carismático cair nas graças de um povo que admira Silvio Santo. Ainda assim vejo mais caráter em Silvio Santos do que em Edir Macedo e trupe, pois aquele distribui dinheiro entre o povão, enquanto esse o rouba. Quem é brasileiro está acostumado com essa idiotice na TV, mas sugiro que assistam ao documentário Muito além do Cidadão Kane (aqui) para ter uma perspectiva de como o mundo lá fora vê o Brasil.

É difícil escravizar um povo que conhece a Bíblia. Mas também é difícil libertar um povo que assiste a Faustão, Gugu e Ratinho.

Ao contrário do que pastores evangélicos possam pensar, suas igrejas superlotadas e sua aceitação no meio do povo não se dá devido à unção de Deus, e sim à mentalidade brasileira predisposta a admirar qualquer um que saiba se virar nos 30.

Veja o sucesso do programa Ídolos. Ídolos! É disso que o povo gosta e é isso que o povo quer. Não estou denegrindo a imagem do povo brasileiro (eu sei que parece!), estou lamentando-a. Lamento! Eu era assim também. Já que o povo quer ídolos, são ídolos que serão dados! Os pastores evangélicos sabem disso e usam essa estratégia para arrebanhar mais fieis a suas igrejas.

Se Michael Jackson, Silvio Santos, Lady Gaga e Ivete Sangalo fossem evangélicos, teriam as maiores igrejas do mundo. Pense nisso.

Guilherme Adriano

 ** Assista neste link o documentário sobre Marjoe Gortner.

Categorias: Reflexões

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